Marcação a mercado: por que o Tesouro pode cair antes do vencimento
Entenda por que o preço de um título do Tesouro Prefixado ou IPCA+ oscila antes do vencimento e como isso pode gerar prejuízo se você vender cedo.
O que é marcação a mercado?
Marcação a mercado é a prática de atualizar diariamente o preço de um título de renda fixa com base nas taxas de juros negociadas naquele momento, e não com base na taxa que você contratou na compra. É por isso que um Tesouro Prefixado ou um Tesouro IPCA+ pode aparecer com saldo menor do que você investiu, mesmo sem nenhum calote — o preço dele sobe e desce todo dia conforme o mercado precifica títulos parecidos.
Isso confunde muita gente porque soa contraditório: como um investimento "seguro" perde valor de um dia para o outro? A resposta é que a garantia do Tesouro Nacional só vale para quem segura o título até o vencimento. Antes disso, você está sujeito ao preço de revenda, que reflete a taxa de juros vigente no mercado, não a taxa fixada no seu contrato.
Na prática, marcação a mercado afeta qualquer título com fluxo de pagamento fixo definido no papel — o caso mais claro é o Prefixado, mas o IPCA+ também sofre esse efeito na parcela prefixada da sua taxa.
Como calcular na prática
O preço de um título prefixado com pagamento único no vencimento segue a fórmula do valor presente: Preço = Valor de Face dividido por (1 + taxa)^prazo, onde a "taxa" usada é a taxa de mercado do momento, e "prazo" é o tempo que falta até o vencimento (não o prazo total do título).
Quando a taxa de mercado sobe, o denominador cresce, e o preço cai. Quando a taxa de mercado cai, o denominador diminui, e o preço sobe. É uma relação inversa: taxa de juros e preço do título prefixado sempre andam em direções opostas.
Exemplo com números reais
Suponha um título com valor de face de R$ 1.000, vencimento em 5 anos, comprado a uma taxa hipotética de 10% ao ano. O preço de compra é R$ 1.000 / (1,10)^5 = R$ 620,92.
Um ano depois, faltam 4 anos para o vencimento. Se a taxa de mercado continuasse em 10%, o preço "esperado" seria R$ 1.000 / (1,10)^4 = R$ 683,01 — o título naturalmente se valoriza com o tempo, aproximando-se do valor de face.
Mas suponha que, nesse um ano, a taxa de mercado subiu para 12% ao ano (o mercado passou a exigir um retorno maior). O preço real fica R$ 1.000 / (1,12)^4 = R$ 635,52 — uma queda de 6,95% em relação ao que era esperado, mesmo o título estando mais perto do vencimento. Se você vender nesse momento, realiza esse prejuízo relativo.
Por outro lado, se a taxa de mercado tivesse caído para 8% ao ano, o preço subiria para R$ 1.000 / (1,08)^4 = R$ 735,03 — um ganho de 7,62% acima do esperado. É o mesmo mecanismo, só que a seu favor.
Erros comuns ao fazer essa conta
- Achar que o Tesouro nunca perde valor: ele não dá calote, mas o preço de revenda oscila normalmente, às vezes bastante, dependendo do prazo do título.
- Confundir Tesouro Selic com Tesouro Prefixado: o Tesouro Selic sofre marcação a mercado muito menor, porque sua rentabilidade já acompanha a taxa básica de juros. Prefixados e IPCA+ longos sofrem mais.
- Vender no pânico após uma queda de preço: se você pretendia segurar até o vencimento, uma queda temporária de marcação a mercado não muda o valor que você vai receber lá na frente.
- Ignorar o prazo restante ao avaliar o risco: quanto mais longo o prazo até o vencimento, maior a sensibilidade do preço a mudanças na taxa de juros. Um título de 10 anos oscila muito mais que um de 1 ano.
- Comparar preço de compra com preço atual sem entender a causa: antes de estranhar uma queda, veja se ela veio de aumento na taxa de mercado — é a explicação mais comum.
Como usar a calculadora relacionada
Para simular o preço de um título em diferentes cenários de taxa, use a calculadora de valor presente: informe o valor de face como valor futuro, o prazo restante e a taxa de mercado do momento para ver o preço estimado. A calculadora de valor futuro ajuda a entender o quanto o título "deveria" valer se a taxa não tivesse mudado, servindo de comparação.
Quando esse cálculo muda sua decisão
Se você vai precisar do dinheiro antes do vencimento, entender marcação a mercado é essencial para escolher o título certo. Prazos mais curtos ou títulos pós-fixados (como o Tesouro Selic) sofrem menos com essa oscilação, e são mais adequados para quem pode precisar resgatar cedo.
Já se o plano é segurar até o vencimento — por exemplo, aposentadoria daqui a 15 anos com um Tesouro IPCA+ 2040 — a marcação a mercado no meio do caminho é só ruído. O que importa é a taxa contratada na compra, que está garantida se você não vender antes da hora.
Também vale considerar esse efeito ao montar uma reserva de emergência: nunca coloque esse dinheiro em títulos longos prefixados, porque um saque em momento de alta de juros pode te obrigar a vender no prejuízo.